Quais as contribuições da filosofia no processo de libertação humana em relação ao totalitarismo?

Por: Mikaella Luiza Ribeiro Barbosa. 

Inicialmente, é necessário ter em mente a definição de opressão. O significado geral de opressão trata-se de um indivíduo que esteja sendo sujeitado a alguém, é a condição da pessoa que está sendo oprimida. No geral, são pessoas diminuindo o potencial de outras de serem plenamente humanas. Tendo em mente seu significado, agora pode-se prosseguir.

O início de uma grande desestabilização

A partir do ano de 1914 uma desestabilização se iniciava no mundo: a Primeira Grande Guerra Mundial. Foi um conflito armado importantíssimo da história que trouxe inúmeras consequências para diversos países, principalmente para a Alemanha. 

É preciso destacar que a Primeira Guerra Mundial foi um marco para colonização alemã no continente africano. Com a derrota na Grande Guerra, a Alemanha perdeu seus territórios na África que foram divididos entre as principais nações europeias no período. 

Além da exploração de matérias primas, como fosfato, café, cacau e algodão no Togo, por exemplo, Bismark, estadista alemão do período, defendia que a presença alemã na África não se dava apenas pela exploração de seu território, mas que se caracterizava em um dever em nome da civilização. Ou seja, os europeus acreditavam ser os representantes do projeto civilizador e  estariam levando aos povos menos evoluídos da África. Essa visão é altamente opressora no quesito racista e hierárquico, postura europeia que marca a colonização como um todo e a justificativa falha para exploração do território africano.

Com o fim da guerra em 1918, a Alemanha, foi obrigada a assinar o Tratado de Versalhes, um acordo entre França e Inglaterra com as terras germânicas que consistia em seus papeis: que fossem proibidas de tomarem novos territórios (portanto, perdeu suas colônias africanas), abusar do uso de seu exército e ainda pagar uma alta taxa de indenização. 

Ao longo desses anos, após esse acordo, o povo alemão estava bastante fragilizado e arrasado com a derrota da Primeira Guerra, foram milhões de mortes civis e militares, construções perdidas e a perda de sua dignidade. 

Adolf Hitler: o início de uma salvação?

Em 1933, nas eleições de partidos políticos que ocorreram, o Partido Nazista foi eleito com seu líder Adolf Hitler que se tornou chanceler no mesmo ano. 

Com a vitória de Hitler e as regras impostas pelo Tratado Versalhes, o líder resolve quebrar o acordo invadindo a Polônia e partir para outra Grande Guerra Mundial que viria a acontecer seis anos mais tarde. 

Em 1939, uma Guerra é iniciada, entretanto o povo germânico ainda estava quebrado e fragilizado com a última guerra que teria sido a poucos anos atrás. Como eles concordaram com a loucura de Hitler?

1. É importante lembrar, que mesmo estando ressentido com a Primeira Guerra, o povo alemão também estava em revolta com o Tratado de Versalhes, foi um dos motivos de se juntarem ao líder.

  2. Outro importantíssimo motivo, foi o carisma que Hitler proporcionava para a população. O nazismo nunca teria chegado tão longe sem a liderança carismática de Hitler, um sujeito que hipnotizava multidões e tinha um poder de convencimento difícil de ser igualado. “No palanque, ele encarnava o mito do ‘corpo’ da Alemanha, cujo sistema circulatório era a massa que o aplaudia com devoção”, filosofa o cineasta sueco Peter Cohen no documentário Arquitetura da Destruição(FONTE: SUPER ABRIL). Além dos fortes meios de comunicação que explodiam na época e passavam uma boa imagem do líder.

3. E por fim, a personalidade reprimida dos judeus que Hitler passava para a população. O Hitler tinha uma política de que a raça ariana era sempre melhor e superior a todas, e graças ao mito de que os judeus eram aliados do diabo, o líder passou a ter um caráter racial por esse povo. As propagandas do regime ensinavam que confinar e matar judeus, assim como ciganos e outras “raças parasitárias”, era uma medida de saneamento, como exterminar ratos e bactérias. A população comprou essa ideia. “Movidos pelo antissemitismo”, diz Daniel J. Goldhagen, “os perpetradores do nazismo acreditavam que acabar com os judeus era justo, correto e necessário”. (FONTE: SUPER ABRIL). 

Foi assim que os alemães viram o Hitler como um salvador que apenas queria vingar seu país e devolver sua dignidade. Uma imagem messias, vista pelos olhos do povo germânico, nascia em Hitler. 

É recomendada a leitura da obra de Walter Langer, “A mente de Adolf Hitler”. Que se trata de um relatório secreto que se trata da mente psique e doente do Füher. https://books.google.com.br/books/about/A_mente_de_Adolf_Hitler.html?id=aLVjDwAAQBAJ&printsec=frontcover&source=kp_read_button&redir_esc=y

Totalitarismo

Porém, a alegria desse povo durou pouco, quando Hitler assumiu um governo totalmente totalitário. Nesse modo de organização política, o Estado exerce o controle total da vida pública e privada, propagando um forte espírito nacionalista. Uma forma de governo totalmente opressora em que o conceito político é o homem como servo do Estado. 

O medo e o terror são sentimentos disseminados em um regime totalitário como um elemento real, servindo como uma forma de controlar a população e mantê-la dependente da atuação e proteção do governo. O policiamento é constante, justamente para se identificar os inimigos da nação e persegui-los.

A propaganda é a maneira mais fácil de fazer chegar à população os ideais do regime totalitário, promovendo o domínio ideológico sobre os cidadãos. É feita uma forma de publicidade que apela para os líderes totalitários como os salvadores da pátria, os escolhidos para resolverem todos os problemas da nação.

Cria-se, assim, um mito, alguém a quem foi atribuído o encargo de vencer os inimigos. Tal propaganda é reproduzida em todo e qualquer meio de comunicação, ao passo que o Estado, por meio de secretarias de regulamentação midiática, controla tudo o que é reproduzido em rádios, cinemas, jornais etc.

Neste vídeo é possível observar um pouco sobre o Nazismo e Fascismo, principais formas de governos totalitários na história.

Filosofia como Libertação do Totalitarismo

A filosofia é uma ciência que abrange questões da natureza, conhecimento e principalmente da existência humana. O totalitarismo representa um sistema de governo que afetou a vida de milhões de pessoas, apresentando reflexos de alcance universal e gerando consequências que perduram até hoje em nossa sociedade.

Um filósofo que podemos associar a libertação do totalitarismo é Jean- Paul Sartre. Foi um importante filósofo da história recrutado em 1939 para a II Guerra Mundial, acabou prisioneiro dos alemães entre 1940 e 1941. Depois de libertado, voltou a lecionar e se integrou à Resistência Francesa, de oposição ao nazismo, fundando o Movimento Socialismo e Liberdade. 

Sartre possui uma famosa frase “o homem é aquilo que ele faz de si mesmo”, o que ele quis dizer com isso foi que sendo livres somos responsáveis por nossas ações,consequentemente somos livres para pensar e conceber nossos próprios paradigmas, não sendo então aquilo que fizeram de nós e sim nos criando a partir do que fizeram de nós. Somos o que escolhemos ser e fazer. Refletindo ao totalitarismo, aponta-se que essa escolha de opressão, adquirida por Hitler e outros líderes, vem do próprio ser humano, da sua escolha e como ele será moldado a partir disso. 

Hannah Arendt e o conceito de banalidade do mal

Até o século XVIII, o problema do mal era tratado do ponto de vista teológico, sendo a maioria das tentativas de elucidá-lo relacionadas com a religiosidade. Porém, a partir da Segunda Guerra Mundial, com o Holocausto Nazista, a reflexão sobre o mal toma um rumo totalmente novo. Nunca antes na História se tinha visto tamanha atrocidade cometida por humanos contra a própria espécie. Definir o mal passou a ser uma problemática aparentemente sem solução. 

Arendt aponta umas das principais atrocidades cometidas pelo regime nazista: a tentativa de tirar a humanidade do indivíduo, de tornar as pessoas incapacitadas de compaixão pelo próximo (“As origens do Totalitarismo”; ARENDT, H.) Ao tentar eliminar o povo judeu, não era apenas o extermínio dos indivíduos em si que se buscava, mas de uma classe específica de indivíduos, de toda uma cultura.

Ela levanta também um ponto bastante polêmico, sobre a participação indireta de líderes das comunidades judaicas no holocausto. Esses líderes eram muitas vezes tinham de escolher quais judeus deveriam ser poupadosdo extermínio, ou seja, sujavam suas mãos ao selecionar vidas humanas como se fossem objetos. Mas Hannah Arendt, não estava de forma alguma acusando seu povo — visto que ela era judia e refugiada — de ter uma parte responsável pelo holocausto. Quando aponta o mal comosendo uma banalidade, ela não quer apenas desmitificar a visão que temos e demonstrar como as mais terríveis atrocidades podem ser cometidas por pessoas comuns, mas sim tirar o mal do patamar de algo que não pode ser mudadoQuando tomamos o mal como sendo algo banal, lhe tiramos umas das principais características, que é a ligação com o sobrenatural, com algo imutável. (“As Origens do Totalitarismo”; ARENDT,H.)

A intenção de Hannah Arendt ao analisar o mal tirando o véu de perplexidade que o encobrira, não é  para aceitar os acontecimentos, mas sim para ver que há sempre uma possibilidade além da maldade, que resistir é uma das únicas formas de se manter humano, de se manter a espécie humana.

Para melhor compreensão do tema, recomendo a leitura do livro de Hannah ArendtAs Origens do Totalitarismo”. Link para leitura: https://books.google.com.br/books/about/Origens_do_totalitarismo.html?id=k8GnBAAAQBAJ&printsec=frontcover&source=kp_read_button&redir_esc=y

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