Escolha boa ou ruim?

Por: Nicolle Faustino Ribeiro da Silva

Desde os primórdios da humanidade a liberdade é pensada e discutida, principalmente por filósofos. Segundo o filósofo grego Aristóteles, é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir, já para Sartre “Estamos condenados a liberdade”, ou seja, o homem está condenado a ser livre e toda a sua existência decorre desta condição. Assim, frente a uma decisão, o homem percebe o seu total desamparo, já que não há nada que possa salvá-lo da tarefa de escolher, em suma, nada pode salvá-lo de si mesmo.

Ao longo de sua vida o ser humano se encontra em vários dilemas, alguns indivíduos, para tentar fugir deles, optam por não aceitar nenhumas das escolhas que lhes são apresentadas. Esse é o famoso “ficar em cima do muro”, onde a pessoa não escolhe nem um nem outro, porém ao escolher ficar em cima do muro, essa pessoa já não está exercendo sua liberdade? Mas e se essa escolha não afetar somente ela, e sim vários envolvidos? Segundo o filósofo inglês Jonh Locke a sua liberdade começa onde termina a do outro, então essa pessoa teria, cedo ou tarde, terá que fazer sua escolha, seja esta boa ou ruim.

Decidir se a opção da escolhida é boa ruim depende de vários fatores, entre eles, a ética e a moral, fazendo então surgir outros fatores como cultura e religião, pois o que é ético para uma sociedade, pode não ser ético para outra, o que é moral para você, pode ser imoral para outros. Pode-se então, relacionar essas questões ao imperativismo categórico kantiano, onde independentemente de punição, a motivação para ação é a preocupação moral e não o receio de uma eventual multa. Não só relacionar a ele como também ao consequencialismo, segundo o qual, o fator decisivo da ação moral não é a intenção, abstratamente considerada, o procedimento, a norma, mas sim o resultado, a consequência da ação.

Observando a imagem acima, pode-se perceber que muitas pessoas relacionam o consequencialismo a algo ruim, algo imoral, visto que o “diabinho” no ombro do homem está instigando ele a pensar nos resultados, enquanto o “anjinho” está dizendo para ele pensar nos valores, na ética por traz de suas ações. Mas por que os indivíduos dessa sociedade veem as consequências como algo “diabólico”, sendo que muitos deles agem pensando nos próprios resultados? Pode ser que eles pensem na forma de agir de acordo com o que é visto como bom ou ruim pela sua sociedade, até porque os valores são universais, enquanto as consequências dependem do próprio ser humano quanto indivíduo.

Um exemplo de dilema envolvendo esses assuntos é: suponha que você é um funcionário da Funai, e trabalha na Amazônia. De seus superiores, você recebe ordens expressas de respeitar os costumes e hábitos da cultura indígena. Ao passear perto de uma clareira, nota que alguns índios estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos segurando um outro bebê. Você impediria a morte do bebê, sabendo que quando há o nascimento de gêmeos naquela tribo, faz parte da cultura dela matar um deles, pois o nascimento de gêmeos é visto como mal presságio?

Se você escolher salvar o bebê estará garantindo a vida de uma pessoa, o que é visto como correto pelos seus olhos, porém estaria desrespeitando os hábitos daquela tribo que não concorda com seu ponto de vista. Se escolher não salvar o bebê, você respeitaria a cultura daqueles índios, porém estaria ignorando um ato de assassinato a um inocente, sabendo que isso poderia ser evitado, e dependendo de sua personalidade, viria a se sentir culpado pelo resto da vida. A primeira escolha seria dada como consequencialista, pois você estaria optando por salvar a maior quantidade o possível de pessoas, porém a segunda escolha seria imperativista, porque você não estaria pensando nas consequências de ter respeitado aquela cultura.

Dilemas como este podem ser considerados bem atuais, pois no próprio governo regente do Brasil há um exemplo dele. Damares Alves, atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, é fundadora da ONG Atini. Esta é responsável por prevenir o infanticídio de crianças indígenas, ou seja, esta fiscaliza onde há crianças índias com risco de morte e de abusos dentro de suas tribos e as resgata. Sendo assim, por mais que a criança esteja passando por um ritual tradicional da tribo, ela é retirada de seu lar e forçada a seguir outra cultura, uma cultura que desrespeita seu próprio povo pelo bem dos valores da sociedade dominante daquela região.

Em 2018, esta ONG foi denunciada por dano moral coletivo decorrente de suas manifestações de caráter discriminatório à comunidade indígena e por tentar legitimar as ações missionárias no interior das comunidades indígenas. Saiba mais clicando aqui .

O quão livres somos?

Por: Maria Carolina Lopes Macêdo

Um belo tamanho para a nossa liberdade não?

Quando nos falam sobre a liberdade, logo a associamos com algo sem tamanho, inviolável, indestrutível, presente em todos e para todos. Porém, nunca paramos para pensar de isso está correto. Afinal, a liberdade, a qual nós conhecemos, é uma ideia concebida desde os primórdios da sociedade e o que impede dela ser apenas isso? Uma ideia.

Nós enquanto seres humanos, não somos 100% “livres”: não o fomos no passado, não o somos hoje e jamais seremos no futuro. O motivo disso é bem simples ao meu ver: a tão aclamada liberdade, pode vir a se tornar nossa prisão.

Nem sempre nossas gaiolas são físicas…

Isso pode soar como um absurdo, mas pense o seguinte: quando você está livre para fazer escolhas, essas mais cedo ou mais tarde, irão ter suas consequências. Mas como isso faz a liberdade ser uma carcerária de nós mesmos? Simples: o ser humano tem em seu âmago a capacidade de temer. Pense assim, quando nos é apresentado duas escolhas, sendo uma dela considerada – pela maioria – a correta e a outra é considerada algo a não fazer, por mais que sentíssemos e quiséssemos escolher a opção dois, a maioria de nós opta pela alternativa um, por medo de represálias.

Então fica a pergunta: Somos realmente livres para fazer o que queremos? Ou fazemos nossa escolha com base no que a sociedade espera de nós?

Sempre encontramos bifurcações para nos atrapalhar em nossas escolhas…

Poderia exemplificar isso com o seguinte dilema:

Uma epidemia viral se espalhou pelo globo e matou milhões de pessoas. Você é um cientista e desenvolveu duas substâncias. Uma delas, você sabe, é uma vacina. A outra é letal. Você não sabe qual é qual. Os frascos não estão identificados. Se você souber qual deles contém a vacina, você poderá usá-la.

Há duas pessoas sob seu cuidado. O único jeito de identificar o frasco correto é injetar cada uma das substâncias em uma das pessoas. Uma irá viver, a outra, morrer.

É adequado matar uma dessas pessoas com uma injeção letal para identificar uma vacina que poderá salvar milhões de vidas?

Quando posto o problema assim parece fácil a escolha: milhões de vidas a preço de uma. Mas, e se uma dessas pessoas fosse um ente querido seu como sua mãe, por exemplo. Mesmo a amando muito, você teria coragem de colocá-la em risco de morte e assim salvar milhões, cumprindo o que a sociedade espera de você?

Com esse novo elemento temos mais uma problemática: o ser humano, na maioria dos casos, faz suas escolhas pelas emoções e sentimentos. Ora, quando se trata de dois estranhos ali, é mais fácil sacrificá-lo em prol de milhões, mas quando uma dessas pessoas é alguém querida e amada, exitamos pois não queremos vê-la morrer, por mais que sua morte significasse a salvação da humanidade.

Com isso concluo o seguinte: a liberdade não passa de um sonho utópico. Seja pela pressão e medo de sermos repreendido, seja por nossas emoções para com alguém ou algo, nossas escolhas sempre são influenciadas e continuamos como indivíduos que acreditam serem plenamente livres, para fazerem o que bem entenderem.

Saiba mais sobre ética e moral (e seus questionamentos), assistindo aos filmes:

O filme trata sobre o impacto que nossas escolhas podem ter em nosso futuro. Clique aqui para assisti-lo.