O concreto ou o imaginário?

Por Laiza Pereira

O único caminho para descobrir o mundo é através de ideias e conceitos, como foi dito na teoria das ideias de Platão. A teoria das idéias de Platão é historicamente o primeiro dos idealismos.

Filosofo: Platão

“Para ele, o ser em sua pureza e perfeição não está na realidade, que é o reino das aparências. Os objetos captados pelos sentidos são cópia imperfeita das idéias puras. A verdadeira realidade está no mundo das idéias, das formas inteligíveis, acessíveis apenas à razão.” – segundo o site estudantedefilosofia

E ao vermos a partir de um aspecto geral, podemos definir o idealismo como o centralismo do Eu subjetivo.

Podemos entender através da forma de pensar em três sentidos:

Sentido Ontológico: A realidade, em sua natureza, é essencialmente espiritual, sendo que a matéria apenas uma ilusão inacabada da matriz perfeita, que se constitui de formas ideais inteligíveis.

Sentido Gnosiológico: O objeto é inteligível pelo ser humano devido às muitas diferenças entre cada indivíduo, o que irá fazer com que cada um compreenda a realidade de uma forma.

Sentido Prático: Trata-se de uma fundamentação de ideias de conduta como uma espécie de guia para o agir humano no mundo.

“Para o idealista inglês George Berkeley, a única existência dos objetos é a idéia que se tem deles: “existir é ser percebido”. As coisas só existem como objetos da consciência. A existência do mundo como realidade coerente e regular estaria garantida por Deus, mente suprema onde tudo se produz e ordena. E no idealismo transcendental de Kant, a experiência sensorial só se torna inteligível por meio de estruturas conceituais preexistentes no espírito humano. Assim, a realidade é apreendida por formas de sensibilidade, como as noções de espaço e tempo, e certas categorias universais do entendimento.” – Segundo o site estudantedefilosofia

Segundo o filosofo alemã Hegel que formulou um sistema filosófico que representa uma síntese do idealismo alemão e é comumente chamada de idealismo absoluto. As formas de pensar seriam também as formas do ser: “o que é racional é real e o que é real, é racional”. O espírito se realiza a si mesmo, no mundo externo, em um processo dialético de superação de contradições, integrado por três fases: tese, antítese ou negação, e síntese, ou negação da negação. Os sucessivos processos dialéticos vieram á conduziro espírito à perfeição.

MATERIALISMO

A imagem do mundo Atual!

Materialismo é toda concepção filosófica que aponta a matéria como uma substância primeira e última de qualquer ser, coisa ou fenômeno do universo.

“Para os materialistas, a única realidade é a matéria em movimento, que, por sua riqueza e complexidade, pode compor tanto a pedra quanto os extremamente variados reinos animal e vegetal, e produzir efeitos surpreendentes como a luz, o som, a emoção e a consciência.” – Segundo o site estudantedefilosofia

O materialismo contrapõe-se ao idealismo, Devido o elemento primordial é a idéia, o pensamento ou o espírito. Bom a tradição materialista na filosofia ocidental, começou com o filosofo pré-socrático Demócrito, no século V a.C., que afirmou que tudo que existe compõe-se de átomos (partículas invisíveis de matéria) em constante movimento no espaço vazio. Já de acordo com o filosofo Epicuro, o mais influente dos materialistas gregos, o qual confirmou a teoria de Demócrito mas atribuiu aos átomos a propriedade de se desviarem de suas rotas, o que explicaria o encontro entre eles.

“Com essa hipótese, Epicuro procurou demonstrar que a origem do movimento está na própria natureza, é inerente a ela e prescinde de intervenção divina. Na sistematização que fez do conhecimento da época, Aristóteles pretendeu conciliar as vertentes materialista e idealista da filosofia grega. Seu pensamento representou um compromisso entre a ciência e a teologia a tal ponto que foi utilizado, no final da Idade Média, como instrumento de defesa da fé cristã.” – Segundo o site estudantedefilosofia

Na França, o filosofo Descartes lançou os fundamentos do materialismo mecanicista com sua teoria dualista, que separa radicalmente espírito e matéria. E na Itália, o filosofoTommaso Campanella e Giordano Bruno defenderam que o pampsiquismo, o qual toda matéria tem um ímpeto interior que adquire qualidade anímica ou consciente.

“A idéia atingiu plena maturidade com Spinoza, o filósofo judeu-holandês que assegurou que matéria e alma constituem os aspectos externo e interno de uma mesma coisa, a natureza, que se confunde com Deus.No século XIX, com os avanços científicos em diversas áreas, em particular a teoria evolucionista de Darwin, as concepções materialistas tiveram grande impulso. Destaca-se o epifenomenismo, defendido pelo britânico Thomas Huxley, que sustentou que os processos mentais prescindem de relevância causal e só os processos físicos dão causa a outros.” Segundo o site estudantedefilosofia

Materialismo Dialético

“O materialismo dialético é uma corrente filosófica que utiliza o conceito de dialética para entender os processos sociais ao longo da história. Essa teoria faz parte do marxismo socialista, criada por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Na concepção marxista, a dialética é uma ferramenta utilizada para compreender a história. A dialética marxista considera o movimento natural da história e não admite sua maneira estática e definitiva. Segundo Engels: “O movimento é o modo de existência da matéria”.” Segundo o site todamateria

Sendo assim, a história quando é analisada como algo em movimento irá torna-se transitória, que por sua vez, pode ser transformada pelas ações humanas. E Nesse caso, a matéria possui uma relação dialética com os âmbitos psicológico e social. Sendo assim, os fenômenos sociais são interpretados através da dialética. E Por meio dessa relação dialética entre o ambiente, o organismo e os fenômenos físicos, os seres humanos, a cultura e a sociedade criam o mundo, ao mesmo tempo que são modelados por ele. Vale notar também que o materialismo dialético é oposto ao idealismo filosófico que acredita que o mundo material é um reflexo do mundo das ideias.

A “Guerra às drogas” como forma de dominação e controle social no Brasil e o papel da filosofia

Por: Giovanna Guedes Coelho

O proibicionismo das drogas é uma política pública imposta no início do século XX. Com a intenção de desnaturalizar a ideia de que as drogas sempre foram proibidas, a dissertação de mestrado defendida por Jonas Lunardon no Programa de Pós-graduação em Ciências Políticas da UFRGS apresenta como foi construída essa política.

Com o fim da escravidão, uma das maneiras encontradas para controlar a cultura negra foi a criminalização social, um processo que passa a ser utilizado para a manutenção do status quo, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. “O proibicionismo das drogas é uma questão de exclusão social e foi uma criminalização direta da população negra”, comenta Jonas.

http://www.ufrgs.br/secom/ciencia/wp-content/uploads/2017/03/propaganda-maconha1.jpg
Rótulo do cigarro de cannabis Grimault

No Brasil, até o início da repressão, era comum que anúncios de cigarros de cannabis fossem encontrados em jornais da época. Como na propaganda da marca Grimault, acima, a publicidade da época atentava para o uso da maconha no tratamento de certos problemas de saúde: “recomendada por autoridades médicas para doenças pulmonares, febre do feno e laringite”. Além disso, peças publicitárias, como a produzida pelo governo de Franklin Roosevelt em 1942, demonstram que a produção de maconha – dado seu potencial industrial para ser transformada em fibras e óleos – foi incentivada em regiões estadunidenses para ser utilizada na indústria de mantimentos à guerra.

O Brasil foi protagonista em incluir a cannabis na lista de substâncias perigosas, o que acontece na época do fim da escravidão e da entrada da população negra na sociedade. Ao longo do tempo, essa população passa a tencionar o tecido social, com seus elementos culturais e religiosos ganhando maior relevância. “Quando isso acontece, decide-se criminalizar componentes dessa cultura. A maconha é um dos elementos criminalizados, da mesma forma que o samba, a umbanda e a capoeira também foram”. Com o passar do tempo, alguns são liberados, sendo até mesmo utilizados como propaganda do Estado brasileiro, mas a maconha não. “Ela é o elemento que serve de estigma para que ainda se possa criminalizar essa cultura. ”

Outros campos se agregam à questão política da criminalização, como os interesses econômicos e os fatores médicos, sanitaristas e higienistas que se articulam e fomentam a proibição. “Principalmente nos interesses econômicos, era fundamental naquele início de século resguardar mercados, como o têxtil, o petrolífero, entre outros. Eles precisavam saber que a concorrência não seria suplantada. A fibra da maconha e os óleos retirados dela eram utilizados para essas questões”.

A proibição da maconha tem origem autóctone: data de 1830 uma postura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, considerada o primeiro documento que penalizava a venda e o uso do “pito de pango”, como era conhecida a Cannabis em nosso país, cujo hábito de consumo recreativo era associado aos africados escravizados que teriam trazido essa cultura (e as sementes) de seu continente de origem. A erva tinha diversos nomes de origem africana, como diamba, bangue, maconha, fumo de angola, pito de pango, riamba e liamba,9 e seu uso não médico era disseminado entre os negros, que passaram a cultivá-la no Brasil. Em clara expressão de racismo estrutural, no século XIX no Rio de Janeiro punia-se com prisão, muito antes de qualquer convenção internacional, o usuário, negro escravizado ou pessoa pobre, enquanto um eventual vendedor seria punido apenas com multa.

Um fato histórico importante para entender a questão é a criação, no governo de Getúlio Vargas, de um sistema nacional de segurança. Dentro do sistema, surge a Delegacia de Costumes, Tóxicos e Mistificações (DCTM), que controla os crimes considerados imorais. “Existe uma institucionalidade dedicada a oprimir componentes da cultura negra. Salo de Carvalho diz que quando o Estado decide criminalizar essas subculturas (ou culturas desviantes, ou contraculturas), ele incrimina seus elementos, para que, a partir deles, se possam reprimir as populações. A maconha, nesse caso, foi o elemento que restou dessa criminalização”, destaca o pesquisador.

Esse tipo de proibição acontece durante a história da civilização humana, como, por exemplo, quando Napoleão dominou o Egito e proibiu algumas práticas dos povos nativos. Quando analisamos no sentido geral, essa repressão é largamente utilizada por domínios ao longo da história.

Poster utilizado pelos USA para promover a produção de cânhamo para o esforço de guerra em 1942.

Para compreendermos melhor como esse fato se deu, a seguir assista uma cena do documentário da Netflix, “Basedo em fatos racias”.

No início deste mês, o The Intercept Brasil trouxe à tona uma pesquisa nacional realizada pela Fiocruz que traça a dimensão do “problema das drogas” no Brasil. A pesquisa intitulada o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas apresenta dados sobre o consumo de determinadas drogas, legais e ilegais, no país, e, apesar de ter sido concluída em 2016, nunca foi divulgada pelo governo federal. O seu resultado foi embargado pelo governo do então presidente Michel Temer e demonstra que, ao contrário dos discursos de autoridades de segurança pública do país, não existe uma epidemia de drogas no Brasil.

No Brasil, predomina ainda a lógica de “guerra” e proibição. Há uma série de políticas e legislações hoje em vigor, como a criminalização do usuário, o enfoque na dimensão da repressão ao tráfico (a despeito da reduzida atenção à prevenção e tratamento), o recrudescimento das penas aos crimes envolvendo drogas, o direcionamento das ações policiais para operações antidrogas, a militarização das polícias, além do encarceramento em massa, dentre outras, que expressam tal abordagem. Diante da necessidade de apresentar uma resposta para esse “problema das drogas”, o governo e agentes de segurança optam ainda por um conjunto de ações midiáticas, a fim de aumentar os números finais de apreensão e encarceramento. Com isso, o uso da força, muitas vezes desproporcional, passa a ser justificado e inclusive demandado por parte da população aterrorizada com a “epidemia de drogas” vivida no país.

O que a omissão do governo nos indica é que sua ação não é apenas responsiva ao problema das drogas que se apresenta no país, mas que ele próprio assume um papel de criar e significar esse tal “problema” sobre o qual poderá justificar suas “soluções”. A pergunta que devemos levantar aos interesses de quem que essa “guerra às drogas” atende.

O controle social contra negros e pobres no Brasil tem sido justificado pela “guerra às drogas”, ainda que seja sabido que o comércio e consumo das mesmas não se restrinjam a esse grupo populacional.  Os crescentes orçamentos no campo da segurança pública e nacional também vem se justificado pela necessidade de controlar o tráfico de drogas. As prisões estão superlotadas de indivíduos acusados por tráfico de drogas, causando uma crise carcerária no país, cuja solução tem caminhado no sentido da privatização das prisões. A insegurança nas cidades tem sido relacionada às drogas, o que vem movimentando um poderoso mercado de segurança privada, para citar algumas possibilidades. As clínicas de tratamento e reabilitação ficam a cargo de entidades privadas e religiosas, interessadas sustentar um modelo baseado na internação compulsória, na moralização do consumo e na abstinência.

Só em 2017, as polícias brasileiras foram responsáveis por 5.144 mortes no país (14 por dia), o que representa 20% de aumento com relação ao ano anterior. No mesmo ano, 367 policiais foram mortos, 5% a menos do que no ano anterior. Vale destacar que os grandes traficantes e crimes violentos não são prioridade das ações policiais. O usuário é foco de 40% das ações policiais, fazendo com que a maior parte das apreensões se direcionem a pequenos traficantes, que carregam quantidades muito pequenas de drogas.

De acordo com os últimos dados divulgados pelo INFOPEN, em junho de 2016, o crime por tráfico de drogas aparece em 28% das incidências penais pelas quais as pessoas privadas de liberdade foram condenadas ou aguardam julgamento no país. De 2005 a 2016, o percentual de mulheres presas por tráfico cresceu de 49% para 62%, levando à explosão do encarceramento feminino no país, que cresceu 698% em 16 anos. Uma vez que a maioria das mulheres envolvidas no comércio de drogas atuam nos níveis mais baixos das redes criminosas, é possível dizer que o foco das ações de combate ao tráfico ocorre no final da cadeia transnacional da droga, sem alcançar e atingir as grandes organizações narcotraficantes.

O atual governo apresenta discurso de que o Brasil está passando por uma “epidemia de crack”, algo que parece não se sustentar pela pesquisa em questão.  O levantamento conclui que 0,9% da população usou crack alguma vez na vida, 0,3% fez uso no último ano e apenas 0,1% nos últimos 30 dias. No mesmo período, maconha, a droga ilícita mais consumida, foi usada por 1,5%, e a cocaína, por 0,3% dos brasileiros. Esses dados, segundo todos os especialistas consultados pelo The Intercept, confirmam que isso está longe de se configurar como uma epidemia.

Em razão disso, questiona-se a metodologia utilizada pela Fiocruz, que não permitiria comparação com pesquisas anteriores. A Fiocruz, por sua vez, garante que adotou a mesma metodologia da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad), levando às ruas mais de 300 pesquisadores e técnicos. Ainda assim, Sergio Moro, na pasta do Ministério da Justiça, afirma que não vai usar a pesquisa para desenhar a Política Nacional de Drogas, discurso este também reproduzido pelo Ministério da Saúde.

Esse posicionamento mostra como o governo não tem interesse em reconhecer a real dimensão do “problema das drogas” no país. A falta de transparência e diálogo sobre a questão das drogas no Brasil permite a manutenção de uma lógica repressiva, como ficou claro na nova Política Nacional de Drogas assinada pelo presidente Jair Bolsonaro.

A divulgação da nova Política Nacional sobre Drogas poucos dias depois do posicionamento contrário do governo à citada pesquisa, que apontava não haver uma epidemia de drogas no país, sustenta nossa interpretação de que existem interesses em não tornar público esses dados. Com isso, voltamos à nossa pergunta inicial: a quem e a que tipo de política interessa a não divulgação da real situação do “problema das drogas” do país?

Essa falta de acesso às informações científicas por parte da população garante um apoio expressivo às decisões governamentais que hoje alinham-se aos setores mais conservadores da sociedade brasileira, mas que atendem a grupos interesses que visam sustentar a lógica da “guerra às drogas”. O resultado é que se acentua uma abordagem repressiva e sensacionalista sobre a questão das drogas, a qual exime o Estado de tratar o consumo dessas substâncias como uma questão de saúde pública. Dessa forma fortalece-se o entendimento do “problema das drogas” a partir da ótica de segurança, o que garante uma política de exclusão, combate e encarceramento massivo da população negra e pobre do país.De certo modo, tudo o que nos cerca hoje é subproduto da Revolução Cultural dos anos 1970, década de onde emergiu o “politicamente correto” e praticamente todas as políticas públicas que marcam a gestão social no Ocidente.

Michel Foucault (1926-1984)

Um dos seus principais mentores ideológicos foi o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) que fundiu numa extravagante doutrina inspirada no anarquismo com as concepções de Nietzsche.

“A partir do Estado Moderno, com a criação de grandes centros urbanos, esse Estado passa a ter que lidar com a população. Foucault desconstrói e analisa várias instituições que servem como sistemas de domínio, como a escola e a educação. Ao trabalhar com a biopolítica, ele analisa como o Estado se baseia no controle do corpo e da consciência. ”

Devemos entender o poder e o Estado não apenas como negativos e repressores, mas também como produtivos e positivos. “Esse tipo de poder cria relações, modos de ser, formas de existência. Para produzir, ele vai precisar de ferramentas políticas e sociais, para criar maneiras de ser que cabem no Estado em que a gente vive. O proibicionismo das drogas é uma dessas ferramentas estruturantes. ”

Michel Foucault pertenceu a uma geração de intelectuais que demonstrou outra receptividade para com as drogas e o vício em geral. Em parte, inspirados na obra de Aldous Huxley, “As portas da percepção” (The doors of perception, de 1954), que relata as experiências do escritor com a ingestão de mescalina, LSD, entre outras, e os efeitos que nele provocou, muitos escritores e ideólogos começaram a reverter as posições que os esquerdistas históricos tinham em relação ao problema das drogas.

Entrementes, no transcorrer das décadas de 1960 e 1970, as ideias dele de “desconstrução” das instituições formais ganharam adeptos no meio acadêmico americano. A nova geração que saiu dos bancos das faculdades de Direito, de Sociologia e de Psicologia, da Costa Leste ou da Califórnia, sofreu forte influência doutrinaria dos professores seguidores de Michel Foucault, um pensador que não acreditava existir na sociedade instituição alguma que não estivesse à disposição da teia do jugo da coerção e da lógica do poder.

Se as instituições serviam acima de tudo como “espaços da opressão” e afirmação do poder, era preciso alterar sua substância, esvaziando a sua razão de ser.

Com a abolição ou contenção da autoridade é possível que Michel Foucault pensasse abrir caminho para a verdadeira revolução que surgiria no porvir, liberando os seres humanos de qualquer amarra. Em termos freudianos, a neutralização do superego com seus rigores e impedimentos, proporcionaria aos indivíduos um novo horizonte de possibilidades não-repressivas.

Se não fora possível libertar o operário do poder do capital, como era a proposta do marxismo clássico, pelo menos, seguindo Michel Foucault, ela ajudaria a libertar milhões de indivíduos dos preconceitos, emancipando-os da moral convencional.

O ativismo filosófico, neste contexto, é a chave, de umas das portas da libertação desta dominação racista e segregacionista.

No Primeiro Encontro Nacional de Coletivos e Ativistas Antiproibicionistas (Encaa), os argumentos usados pelo movimento se relacionam a questões práticas, como a falta de resultados da política criminalizadora das drogas no país em comparação com o aumento da violência, mas também ao conceito de até onde o Estado pode interferir em escolhas pessoais. Henrique Soares Carneiro, professor de história moderna da Universidade de São Paulo (USP), e um dos palestrantes do primeiro dia do encontro, estudou o uso de substâncias psicoativas pela humanidade e seus diferentes usos ao longo da história, desde o aspecto religioso e medicinal até o efeito recreativo.

“O uso de drogas é parte da condição humana, pode ser bem ou mal-usada. Se é mal-usada cabe à sociedade oferecer assistência, dar formas de ter desabituação como ocorre com o álcool. Agora, não é porque alguns se tornam alcoólatras que você vai proibir o álcool”.

Ele defende que um dos princípios a serem levados em conta na questão é “ético-filosófico”: a liberdade de escolher o que ingerir, desde que isso seja feito sem perturbar os outros. Ele rebate o argumento de que as substâncias devem ser proibidas porque são maléficas à saúde usando o exemplo do consumo do excesso de açúcar, um fator determinante para diabetes e obesidade, mas que não é – e na opinião do acadêmico não deveria – ser criminalizado.

A legalização permitiria retirar do crime organizado uma das maiores fontes de receita contemporâneas mundiais, que é a comercialização de drogas. “E está na mão não só de grupos criminosos, mas de grupos que corroem as instituições. No Brasil, há o famoso helicóptero com 450 quilos (kg) de cocaína de uma família de um clã de políticos mineiros, que nunca foi investigado apesar de todas as evidências. O narcotráfico é, na verdade, parte da instituição de poder hoje no Brasil. E a renda dele está sendo embolsada da mesma forma que a corrupção. Então legalizar é tirar dessa esfera clandestina corrupta que está alimentando fortunas que não são de favelados”, defende Henrique Carneiro, da USP.

Fontes de pesquisa:

https://outraspalavras.net/terraemtranse/2019/04/18/guerra-as-drogas-para-quem/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-06/movimentos-discutem-mudancas-nas-politicas-antidrogas

https://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia/das-drogas-a-loucura-foucault-inspira-o-politamente-correto,08d942ba7d2da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

https://diplomatique.org.br/a-proibicao-como-estrategia-racista-de-controle-social-e-a-guerra-as-drogas/

Quais as contribuições da filosofia no processo de libertação humana em relação à Intolerância Religiosa.

Por: Ana Vitória Dávila Pureza De Oliveira.

Intolerância Religiosa é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Pode-se constituir uma intolerância ideológica ou política, sendo que, ambas têm sido comuns através da história. A maioria dos grupos religiosos já passou por tal situação numa época ou outra. Floresce devido à ausência de liberdade de religião e pluralismo religioso.

Perseguição, neste contexto, pode referir-se a prisões ilegais, espancamentos, torturas, execução injustificada, negação de benefícios e de direitos e liberdades civis. Pode também implicar em confisco de bens e destruição de propriedades, ou incitamento ao ódio, entre outras coisas, que são atitudes de grande barbaridade.

Como o catolicismo não admitia nenhuma outra religião que não fosse a católica, as crenças dos indígenas passaram a ser vistas como maléficas e, portanto, desprezadas.

Com a chegada dos negros que foram escravizados a mesma atitude se repetiu. Para escapar da perseguição dos senhores e do clero, os negros usavam as imagens dos santos católicos em suas cerimônias quando na verdade estavam cultuando seus orixás. Assim começou a relação entre o sincretismo e as religiões afro-brasileiras.

Durante o Império, a religião católica foi declarada oficial pela Constituição de 1824. Isso queria dizer que nenhuma outra religião poderia realizar cultos públicos. Igualmente, os locais destinados às reuniões não poderiam ter, externamente, símbolos que identificassem como um templo.

Segundo a Agência Senado, em janeiro, a TV Bandeirantes foi condenada pela Justiça Federal de São Paulo por desrespeito à liberdade de crenças porque, em julho de 2010, exibiu comentários do apresentador José Luiz Datena relacionando um crime bárbaro à “ausência de Deus”. “Um sujeito que é ateu não tem limites. É por isso que a gente vê esses crimes aí”, afirmou o apresentador. A emissora foi condenada a exibir em rede nacional, no mesmo programa, esclarecimentos sobre diversidade religiosa e liberdade de crença.


O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Marco Feliciano (PSC-SP). Pastor evangélico, ele escreveu no Twitter que africanos são descendentes e um “ancestral amaldiçoado por Noé” e que sobre a África repousam maldições como paganismo, misérias, doenças e fome.

De acordo com o filósofo inglês John Locke, se houvesse apenas uma religião verdadeira, um único caminho para o céu, que esperança haveria que a maioria dos homens a alcançasse, se os mortais fossem obrigados a ignorar as regras de sua própria razão e consciência, e cegamente aceitarem as doutrinas impostas por seu príncipe e cultuar Deus na maneira formulada pelas leis de seu país.

Jonh Locke

Aqui um livro sobre Liberdade Religiosa:

https://www.saraiva.com.br/liberdade-religiosa-na-constituicao-1980954/p

Caminhos da Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

Quando se tem um objetivo, é necessário batalhar para alcançá-lo. Contudo, muitos indivíduos se sentem em dúvida quando se deparam com a oportunidade de conseguir o que desejam mais rapidamente, porém, o preço a se pagar é agir de forma antiética.

Diz não à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz não à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz não à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz não até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz não à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz não à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz não à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz não a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenamo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz não ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz não mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do não ao que te limita e degrada que tu hás de construir o SIM da tua dignidade.

Eu não nasci com fome de ser livre. Eu nasci livre – livre em todos os aspectos que conhecia. Livre de correr pelos campos perto da palhota da minha mãe, livre de nadar num regato transparente que atravessava a minha aldeia, livre de assar maçarocas sob as estrelas e montar os largos dorsos de bois vagarosos. Contanto que obedecesse ao meu pai e observasse os costumes da minha tribo, eu não era incomodado pelas leis do homem nem de Deus. Só quando comecei a aprender que a minha liberdade de menino era uma ilusão, quando descobri, em jovem, que a minha liberdade já me fora roubada, é que comecei a sentir fome dela. Calcorreei esse longo caminho para a liberdade. Tentei não vacilar; dei maus passos durante o percurso. Mas descobri o segredo: depois de subir uma alta montanha apenas se encontram outras montanhas para subir. Parei aqui um momento para descansar, para gozar a vista da gloriosa paisagem que me rodeia, para voltar os olhos para a distância percorrida. Mas só posso descansar um momento, porque, com a liberdade, vem a responsabilidade, e não me atrevo a demorar, pois a minha caminhada ainda não terminou.Ser livre não é apenas livrar-se das próprias grilhetas, mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros. Eu não tinha a menor dúvida de que o opressor tinha de ser libertado tanto quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem está prisioneiro do ódio, está fechado atrás das grades do preconceito e da estreiteza de vistas. Não sou verdadeiramente livre se estou a tirar a liberdade a alguém, tão certamente quanto não sou livre quando me é roubada a minha humanidade. Tanto o oprimido quanto o opressor são espoliados da sua humanidade.

Bom é ver as pessoas livres. A liberdade tanto é uma coisa que se pratica como um conceito que se discute.

Para se ser livre é preciso pensar-se que se pode ser um bardamerda (e mais, sendo provável que se seja) mas que isso não impede a nossa vontade (que é deliciosa muito antes de ser um direito) de se dizer o que se pensa.

A liberdade é aquilo com que nascemos, com que os bebés se exprimem. A contenção é que é ensinada. Todas estas regras, boas e más (até acredito que mais de 50 por cento sejam boas), só servem para nos reprimir.

A vida é muito curta e a coragem é muito pouca. Os outros assustam muito mais do que querem e Sartre, quando não disse exatamente que «o inferno são os outros» estava a fazer questão de falar da nossa excessiva (e estúpida) dificuldade de falar e agir colectivamente.

O amor e a amizade são as duas grandes provas do valor da liberdade. A vida é uma sentença a que todos estamos condenados. Estarmos vivos não pode ter qualquer valor, por muito que custe à brigada comercialista que nos quer congratular por não termos morrido.

Ser livre é estar à mercê do que não se escolheu. Eu sei lá porque amo a Maria João. Sei explicar e aprendi a fazer listas mas nunca me dei conta – graças a Deus – de ter tomado uma decisão «nesse sentido», como fria e topograficamente se diz.

A liberdade não é não estarmos presos: é estarmos presos e felizes, às pessoas e às ideias que amamos, sem sabermos porquê. Mas sabendo como, até morrermos.

Liberdade ou Utopia ?

Liberdade ? 

Ah, liberdade… Um simples substantivo, mas que aflige o ser humano desde os primórdios de sua história. O que é ela? Um conceito abstrato? O ápice da existência? Ou só algo ao qual buscamos sem saber exatamente o que é? 

 

De acordo com os conceitos mais conhecidos, liberdade é agir de acordo com a própria vontade, sem interferência de terceiros e sem prejudicá-los. Porém a liberdade se contradiz em seu próprio conceito, uma vez que alguém que queira matar o próximo tem sua liberdade ferida por não poder matá-lo, já que isso prejudicaria tal pessoa. 

Penso que a liberdade é uma utopia, ou até uma distopia. Utopia por parecer impossível alguém ser plenamente livre, já que absolutamente tudo o que nos cerca interfere sobre nossas decisões, ferindo diretamente o princípio de agir de acordo com a própria vontade, e consequentemente nos impedindo de ser livres. Fatores como cultura, religião, período histórico, família, mídia, ideologias e até o próprio Estado, que é responsável por zelar pela liberdade de cada um, interferem direta ou indiretamente em nossas ações. Distopia pelo simples fato de que se cada um fizesse oque bem entendesse, a sociedade entraria em caos total, e finalmente a liberdade coletiva seria vetada, pois o egoísmo e as guerras trariam destruição. 

De acordo com os filósofos contratualistas, o ser humano nasce naturalmente livre, mas o ambiente no qual vive faz com que ele tenha sua liberdade colocada em xeque a todo momento. Por isso o homem abriria mão de parte de sua liberdade para ser submisso a uma conduta social que faria com que todos vivessem em harmonia e teriam sua liberdade resguardada. Mas porque o ser humano abriu mão de algo que ele vive em busca desde que tomou consciência de si? A resposta mais plausível é que ele não queria se tornar escravo de sua própria vontade, pois a partir do momento que você carrega a bagagem de ser livre, você também tem que assumir as consequências de seus atos. Dessa forma é mais fácil ser escravo de leis, que pelo menos irão “proteger” seu direito de decisão e punir quem o prejudicar de alguma forma; do que viver com o “peso” de filosofar a cada escolha que precisar ser feita e ponderar cada reação que ela pode desencadear. 

Não se pode negar que a liberdade talvez seja um dos maiores focos de desejo que existem. Isso faz com que ela seja usada como instrumento de chantagem, já que a todo momento temos a liberdade ameaçada pela justiça, através da terrível punição que nos será dada se não 

andarmos nos conformes, que é exatamente a privação da liberdade. As leis são códigos éticos e morais que permeiam a vida social e ditam oque pode ou não ser feito. È de extrema hipocrisia prometer ao povo a liberdade, mas impor limites sobre ela, fazendo ela deixar de ser oque era essencialmente. Para ser livre verdadeiramente, o ser humano tem que poder fazer oque quiser, inclusive ser mal. A maldade é inerente ao ser humano se formos julgar de acordo com os valores atuais. Então o homem deve atender ao desejo entranhado em si, mesmo que infelizmente isso vá prejudicar alguém. 

Me arrisco a dizer que a liberdade é mais importante que a própria vida, pois desde a antiguidade clássica ou até mesmo antes, o maior instrumento de punição é a falta de liberdade. A escravidão, a prisão e tudo que prive o homem de agir minimamente da forma que quiser, é um grande ameaça, causa terror. Seria mais efetivo tirar a vida de um infrator, mas preferem torturá-lo tirando sua liberdade, causando traumas psicológicos neles.

A liberdade traz consigo o fardo da escolha, que infelizmente tem que levar em consideração a ética vigente, e eu particularmente não sou totalmente favorável aos valores éticos. Um livro e um filme me marcaram muito e que são repletos de dilemas éticos são Laranja Mecânica. Livro de Anthony Burgess adaptado por Stanley Kubrick em 1971. Ambos contam a história de um grupo de amigos que saem pela cidade para cometerem vandalismos; estupro; roubo e agressão. Um dia o líder do grupo, Alexander (Alex) é preso, e por ser um adolescente horrivelmente cruel, o governo vê nele uma potencial cobaia para um projeto de reinserção social. O projeto consistia em uma série de situações pela qual o detento teria que passar para “deixar de ser um mal cidadão”, como assistir filmes de guerra e estupro enquanto tem vontade de vomitar e etc. Com isso a cobaia estaria condicionada a não fazer mais tais coisas pois sentiria um desconforto físico muito grande. Alex aceita passar por essas seções de tortura para ter sua pena reduzida e se tornar alguém bom. Mas o cerne da questão é: seria justo praticar engenharia social com um cidadão para que esse deixasse de cometer infrações só pelo medo da dor física? Seria justo fazer uma pessoa deixar de agir conforme sua “natureza” através de algo tão superficial como o medo de ser punida? Ou seria melhor apenas deixar os infratores presos e depois eles serem libertos com a possibilidade de repetir tais atos? 

Trailer da adaptação de Laranja Mecânica.

Esse conflito tem uma dualidade muito difícil de se resolver. Ao aplicar tais métodos de “reabilitação” em Alex, estaríamos ferindo sua liberdade, pois ele é uma pessoa ruim naturalmente, uma vez desde criança ele comete esses tipos de atos sem nenhum motivo “justificável”, só por diversão. A maldade o faz feliz e dá prazer. Uma vez que ele não pudesse mais fazer algo que quer e se sente bem fazendo, a sua liberdade estaria sendo violada. O governo estaria tirando sua liberdade de escolha através da tortura. Alex ainda é uma pessoa ruim, ainda tem os mesmos pensamentos criminosos, mas a dor o obriga a não fazer mais oque gosta. Ele não é mais livre porque agora não tem mais escolhas. Além de tudo, é antiético provocar traumas e condicionar comportamentos nas pessoas, então estaríamos punindo uma pessoa antiética com algo antiético. 

Trecho do filme onde é apresentado o empasse sobre a liberdade de escolha do jovem Alex de forma explícita.

Porém, há algo que nos compactuar com essa experiência aplicada em Alex: a nossa própria liberdade. Quando pensamos que há alguém que pode a qualquer momento nos fazer algo de ruim, queremos que essa ameaça seja liquidada, então de início é automático que queiramos que Alex passe por procedimentos que mesmo que obriguem ele a não agir de certa forma, nos proteja de ter a liberdade violada em algum nível.

Resultado de imagem para sartre o homem é condenado a ser livre

De forma conclusiva, eu deduzo que a tal liberdade pela qual almejamos não existe, pois nem sequer saber exatamente o que ela é. E mesmo que ela seja oque os dicionários dizem, é impossível que ela seja pura, pois não podemos agir sem interferências externas, por mais indiretas que sejam. Então para sabermos oque palavra liberdade é, precisamos vivê-la, e não passar a vida as sendo escravos pela pela sua busca ou refletindo eternamente qual seu verdadeiro significado.

(Autora: Kathlyn Jullie)

IDEALISMO X MATERIALISMO

Autora: Sabrina Andrade Silva

Segundo o grego Tales de Mileto “A coisa de maior extensão no mundo é o universo, a mais rápida é o pensamento, a mais sábia é o tempo e mais cara e agradável é realizar a vontade de Deus”, essa afirmativa nos permite refletir, hodiernamente, sobre o surgimento do pensamento científico, visto que os pré-socráticos foram os primeiros indivíduos a tentar explicar o mundo de forma racional.

       Apesar da imensidão do universo eles acreditavam em um único princípio original. Sendo assim, o arché para Tales era a água, porém do ponto de vista do homem contemporâneo essa percepção pode parecer simplista, todavia tal anacromia configura-se como prejudicial para o entendimento do contexto do século VII ao V a.C. Dado que, os filósofos da natureza tiveram um avanço considerável, desprendendo-se da cosmogonia e aderindo a cosmologia, ou seja, eles pararam de se basear nas mitologias gregas para elucidar o surgimento do cosmos.

      Na antiguidade tiveram outros filósofos importantes que assentiam com a ideia do arché, como os discípulos de Tales: Anaxímenes e Anaximandro, sendo o ar e o ápeiron o princípio original para eles, respectivamente. Além disso, Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera foram impreteríveis para o estudo da matéria, já que eles supuseram que essa substância é constituída por átomos e vácuo, algo comprovado cientificamente 2200 anos depois, por Dalton. Esses sujeitos inspiraram diversos filósofos séculos depois, como Friedrich Nietzsche um notável materialista.

O período clássico da filosofia tem como um de seus pensadores Sócrates, sendo a seguinte frase um resumo da sua busca pela alethéia: “Eu não posso ensinar nada a ninguém, eu só posso fazê-lo pensar”. Tendo em vista o método socrático, que consistia em chamar um sofista para conversar e fazer algumas indagações até ele perceber a própria ignorância, ocorrendo, portanto, a maiêutica. Os teóricos da fase antropológica, diferentemente dos pensadores do primeiro período da filosofia antiga, tinha por objeto principal de investigação as questões humanas, como a ética, a política e a maneira em que fundamentava-se o conhecimento.

       É imprescindível salientar que Platão, um dos alunos de Sócrates, foi o primeiro teórico idealista. Para ele existe duas formas de adquirir sapiência: a partir do mundo das ideias ou através do mundo sensível. Sendo o primeiro o saber científico e o único onde está a verdade; já a segunda maneira tem grande chance de ser enganosa, configurando-se somente como uma doxa, porquanto é obtida por intermédio dos sentidos. E para tentar explicar a condição dos seres humanos que estão alheios ao pensamento crítico, seja por falta de interesse ou oportunidades, ele fez a alegoria da caverna. Esse mito afirma que as sombras do mundo sensível necessitam de ser sobrepujadas pela luz da verdade universal e da razão.

  Em contrapartida, um dos grandes discípulos de Platão, Aristóteles não era dualista, acreditando que o conhecimento é fruto da junção do sensível (sentidos) com o inteligível (razão). Ademais, relativo à essência do ser humano ele cria numa mesclagem das ideias de Parmênides e Heráclito, ou seja, consoante Aristóteles há um âmago, entretanto ele passa por transformações.

       Em oposição aos pensamentos supracitados, tem-se como preeminente o materialismo, sendo as ideias originárias dos filósofos pré-socráticos: Demócrito, Leucipo, Epicuro, Lucrécio e os estoicos. Todavia, tais concepções só culminaram no século XIX com Karl Marx, Friedrich Engels e Friedrich Nietzsche. Desse modo, os materialistas acreditam que não há nada fora da natureza que possa ser apreendido pelos sentidos, por conseguinte, não há Deus nem ideais. Além do mais, segundo os marxistas, o materialismo histórico designa que o conjunto da vida em sociedade, tanto em relação a espiritualidade quanto a política, é estabelecido pela forma de produção da vida material. É notório no capítulo III da obra “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, que Friedrich Engels parte da mesma ideia de Marx, ele afirma: “A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz e pelo modo de trocar os seus produtos.”

Nietzsche, trabalhava mais com conceitos apolíneos e dionisíacos, sendo Apolo o deus grego da lucidez, harmonia e ordem, enquanto Dionísio seria o deus da embriaguez, exuberância e desordem. No livro “O anticristo” publicado em 1895 ele profere diversas atrocidades relativo à moral cristã, que para ele é um produto do ressentimento, no sentido de ser manifestação do ódio contra os valores da casta superior aristocrática, inacessíveis aos pessoas inferiores. Para ele o cristianismo é a decadência da humanidade, visto que ele toma partido de tudo que é fraco. De fato, de acordo com a agência Fides a Igreja Católica é a instituição que mais faz obra de caridade no mundo, ajudando pobres e doentes. E consoante o filósofo em questão, as virtudes cristãs, como a compaixão que é contra a lei da seleção natural, atua preservando aquilo que está preparado para a decadência; o perdão configura-se como incapacidade de vingança, pelo fato do cristão ser fraco e inapto para vingar-se acaba perdoando; a crença no juízo e na condenação ao inferno representa a não existência de um perdão efetivo por parte do cristão.

Nietzsche estudava teologia, entretanto não conseguiu compreender um dos princípios básicos, o livre arbítrio, que consiste na existência de duas opções, o céu e o inferno, só vai para o inferno quem decidiu viver nas trevas durante a vida terrena e vai para o céu quem aceitou a luz de Jesus. Deus não obriga ninguém a passar a eternidade junto a Ele, portanto, depois da nossa morte a nossa decisão é respeitada. É imprescindível ressaltar que essas escolhas são feitas no dia a dia, especialmente, com ações. Ademais, a salvação é individual não dependendo do perdão dos outros cristãos e sim do arrependimento de todos pecados mortais cometidos. Porém essa ideia é “compreensível” pelo fato dele estar se baseando na ideia de que os cristãos criaram uma concepção de Deus e mataram-na (“Deus está morto”), e não está se baseando efetivamente na doutrina cristã. Portanto, pode-se inferir que Nietzsche quer fazer a transvaloração da cultura ocidental, derrubando as três bases que a constitui: fé cristã, direto romano e parte da filosofia grega.

    Comumente, há uma compreensão equivocada, por inúmeros indivíduos, que existe um antagonismo entre o prazer (estando mais atrelado ao materialismo) e o cristianismo (com ideias semelhantes a alguns aspectos do idealismo), como se os sentidos fossem demonizados e os cristãos fossem privados dos prazeres. Contudo, é necessário salientar que é tido como pecaminoso certas condutas e determinados prazeres que não ocorrem nas circunstâncias adequadas, como o prazer sexual fora do casamento. Além disso, até mesmo pela própria lógica cristã não faria sentido essa percepção supracitada, pois Deus não criaria algo apenas para proibir. Sendo assim, para Nietzsche a nossa humanidade se preocupou mais com os conceitos apolíneos do que dionisíacos, nos levando ao caos, ou seja, a ordem propiciada pelo cristianismo é na realidade o caminho para perdermos a nossa humanidade.

Portanto, é notório o antagonismo do materialismo e idealismo, visto que enquanto o materialismo procura explicar todos os fenômenos através do que pode ser visto, ou sentido, como o vento. Sendo assim, está diretamente atrelado à matéria, átomos, e não se acredita em nada abstrato, como espíritos. Em contrapartida, o idealismo crê que nada acontece em vão e tudo tem como origem algo maior, e tudo ocorre para que essa coisa maior prevaleça.

     Referências

https://www.marxists.org/portugues/tematica/1922/materia/cap04.htm

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/12/idealismo-x-materialismo/

https://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/6546659https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/pre-socraticos.htm

Cegos de Liberdade

Autor: Claudson dos Santos Monteiro

liberdade

A liberdade no literal significa agir conforme a sua vontade, conforme sua natureza, cogitando com que o homem aja em sua totalidade, desde de que a mesma não prejudique outrem.

livro Ensaio Sobre a Cegueira

Podemos fazer uma linha de pensamento, sobre a liberdade, pegando como base o livro/filme “Ensaio Sobre a Cegueira” do José Saramago, que aborda a questão de liberdade de uma maneira peculiar.

Ensaio sobre a cegueira

Esse filme/livro conta a história de pessoas que ficam cegas aleatoriamente, dando a entender que um tipo de doença contagiosa. A cegueira possui uma cor branca, descrita como mar de leite que afeta a população repentinamente. Esses cegos são levados à uma quarentena para viverem em uma realidade precária, uma terra somente de cegos.

Escritor português José Saramago

Qual é a crítica que surge nessa história?

O livro/filme deixa bem claro a mensagem simples a ser transmitida: “o ser humano tem uma natureza animalesca e bárbara”. Ao serem colocados na situação de cegos, o autor está renunciando aos poucos o senso moral e cultural dos personagens, chegando até mesmo na bestialidade. Cenas de assédio, agressão, estupro, suicídio, assassinato começam a surgir com mais frequência até o final do filme, mostrando a precariedade em que eles começaram a viver.

Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tomando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis..” – Ensaio Sobre a Cegueira

Liberdade que cega

O poder de fazerem o que quisessem sem serem punidos é o que colocou o senso moral dos personagens em jogo. A “liberdade” que eles adquiriram nessa terra sem lei de assediar uma mulher sem que niguem perceba por exemplo – como no caso do ladrão que começa a abusar de uma mulher de oculos – setores da quarentena impondo estupro coletivo em troca de comida, e entre outros, foi a promissora de várias cenas repugnantes. Quando esse tipo de “liberdade” interfere em outra pessoa, está de certa forma anulando a liberdade que o outro possui, como citado no conceito inicial  de que a liberdade só existe de fato quando a mesma não interfira ou prejudique alguém.

            Quando os personagens são expostos a cegueira, eles tentam seguir a vida de maneira natural porém aos poucos eles começam a enxergar que nada adianta, pois os demais já estavam “cegos de liberdade”. Mesmo querendo comer todos os dias, haviam cegos negando comida em troca de mulheres, abidicando da liberdade que elas tinham sobre o corpo e a liberdade de se alimentar. “Eu tenho uma arma eu sou livre para ter quantas mulheres eu quiser” é uma frase do líder dos estupradores. Levando em consideração que na sociedade tem pessoas “cegas de liberdade” por ter um poderio militar muito grande, ou porque tem comida e as outras não, tem dinheiro e por isso é livre para fazer o que quiser, conseguimos elaborar a idéia que esse livro/filme retrata os seres mais repugnantes da sociedade de uma maneira muito simples. Todos eles estão cegos de poder, cegos nas suas ações, cegos de liberdade.

A importância histórica e a atualidade da filosofia iluminista

Para entender a importância histórica do iluminismo, precisamos primeiro saber oque é o iluminismo. O Iluminismo é um termo abrangente, que reúne muitos pensadores, em mais de um século, mas chamado genericamente de o “século das luzes”, em referência à  razão. Ou seja, um período em que diversos filósofos procuraram estabelecer a razão (a racionalidade), acima da fé, da religiosidade e também, da tradição monárquica. Nesse contexto o pensamento iluminista teve seus primeiros representantes, ainda sem serem identificados como tais.


Isaac Newton (1643-1727), por exemplo, é um dos grandes pensadores do período e você deve conhecê-lo como o pai da teoria da gravidade. apesar de hoje pensarmos o Iluminismo como ummovimento iluministaou como uma escola filosófica, na prática, não havia um único movimento. O que havia era um contexto social que permitia a muitas pessoas brilhantes pesquisarem, escreverem e difundirem suas descobertas e teorias.
  Um dos mais destacados e originais pensadores iluministas foi Jean jacques rousseau (1712-1778). Diferentemente da maioria dos iluministas, ele não era um defensor incondicional do racionalismo. Suas principais obras foram. O discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e o contrato social. No primeiro livro ele defendia que o homem, na sua essência mais natural, era bom, assim a natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade o depravou, tornando-o miserável. A origem da infelicidade humana e das diferenças sociais estaria no surgimento da propriedade privada da terra. No  “O contrato Social” ele defendia a concepção de que a democracia baseava-se na vontade da maioria, isto é, na soberania do povo, que se manifestava pelo voto. Os governos eleitos, portanto, deveriam refletir e seguir essa vontade geral. Ele advogava a favor da soberania popular. A importância das ideias iluministas francesas para a historia foi que  influenciaram as instituições políticas modernas. Até hoje, com pequenas modificações, a maioria dos países mantém características iluministas

    Uma das atualidades que o Iluminismo ajudou a criar foram essas incontáveis possibilidades que a internet oferece em termos de conhecimento. Conduzem à necessidade de se fazer uma analogia entre o que a rede oferece ao público e aquilo que o Iluminismo estava propondo no século XVIII. Ambos convergem ao ponto onde o conhecimento deve estar acessível a todos, independentemente de fatores políticos, sociais ou econômicos. A meta que devemos seguir, então, não deveria ser de uma internet centralizada, para poucos. Mas, sim, de uma internet iluminista

Escolha boa ou ruim?

Por: Nicolle Faustino Ribeiro da Silva

Desde os primórdios da humanidade a liberdade é pensada e discutida, principalmente por filósofos. Segundo o filósofo grego Aristóteles, é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir, já para Sartre “Estamos condenados a liberdade”, ou seja, o homem está condenado a ser livre e toda a sua existência decorre desta condição. Assim, frente a uma decisão, o homem percebe o seu total desamparo, já que não há nada que possa salvá-lo da tarefa de escolher, em suma, nada pode salvá-lo de si mesmo.

Ao longo de sua vida o ser humano se encontra em vários dilemas, alguns indivíduos, para tentar fugir deles, optam por não aceitar nenhumas das escolhas que lhes são apresentadas. Esse é o famoso “ficar em cima do muro”, onde a pessoa não escolhe nem um nem outro, porém ao escolher ficar em cima do muro, essa pessoa já não está exercendo sua liberdade? Mas e se essa escolha não afetar somente ela, e sim vários envolvidos? Segundo o filósofo inglês Jonh Locke a sua liberdade começa onde termina a do outro, então essa pessoa teria, cedo ou tarde, terá que fazer sua escolha, seja esta boa ou ruim.

Decidir se a opção da escolhida é boa ruim depende de vários fatores, entre eles, a ética e a moral, fazendo então surgir outros fatores como cultura e religião, pois o que é ético para uma sociedade, pode não ser ético para outra, o que é moral para você, pode ser imoral para outros. Pode-se então, relacionar essas questões ao imperativismo categórico kantiano, onde independentemente de punição, a motivação para ação é a preocupação moral e não o receio de uma eventual multa. Não só relacionar a ele como também ao consequencialismo, segundo o qual, o fator decisivo da ação moral não é a intenção, abstratamente considerada, o procedimento, a norma, mas sim o resultado, a consequência da ação.

Observando a imagem acima, pode-se perceber que muitas pessoas relacionam o consequencialismo a algo ruim, algo imoral, visto que o “diabinho” no ombro do homem está instigando ele a pensar nos resultados, enquanto o “anjinho” está dizendo para ele pensar nos valores, na ética por traz de suas ações. Mas por que os indivíduos dessa sociedade veem as consequências como algo “diabólico”, sendo que muitos deles agem pensando nos próprios resultados? Pode ser que eles pensem na forma de agir de acordo com o que é visto como bom ou ruim pela sua sociedade, até porque os valores são universais, enquanto as consequências dependem do próprio ser humano quanto indivíduo.

Um exemplo de dilema envolvendo esses assuntos é: suponha que você é um funcionário da Funai, e trabalha na Amazônia. De seus superiores, você recebe ordens expressas de respeitar os costumes e hábitos da cultura indígena. Ao passear perto de uma clareira, nota que alguns índios estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos segurando um outro bebê. Você impediria a morte do bebê, sabendo que quando há o nascimento de gêmeos naquela tribo, faz parte da cultura dela matar um deles, pois o nascimento de gêmeos é visto como mal presságio?

Se você escolher salvar o bebê estará garantindo a vida de uma pessoa, o que é visto como correto pelos seus olhos, porém estaria desrespeitando os hábitos daquela tribo que não concorda com seu ponto de vista. Se escolher não salvar o bebê, você respeitaria a cultura daqueles índios, porém estaria ignorando um ato de assassinato a um inocente, sabendo que isso poderia ser evitado, e dependendo de sua personalidade, viria a se sentir culpado pelo resto da vida. A primeira escolha seria dada como consequencialista, pois você estaria optando por salvar a maior quantidade o possível de pessoas, porém a segunda escolha seria imperativista, porque você não estaria pensando nas consequências de ter respeitado aquela cultura.

Dilemas como este podem ser considerados bem atuais, pois no próprio governo regente do Brasil há um exemplo dele. Damares Alves, atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, é fundadora da ONG Atini. Esta é responsável por prevenir o infanticídio de crianças indígenas, ou seja, esta fiscaliza onde há crianças índias com risco de morte e de abusos dentro de suas tribos e as resgata. Sendo assim, por mais que a criança esteja passando por um ritual tradicional da tribo, ela é retirada de seu lar e forçada a seguir outra cultura, uma cultura que desrespeita seu próprio povo pelo bem dos valores da sociedade dominante daquela região.

Em 2018, esta ONG foi denunciada por dano moral coletivo decorrente de suas manifestações de caráter discriminatório à comunidade indígena e por tentar legitimar as ações missionárias no interior das comunidades indígenas. Saiba mais clicando aqui .

FALSA LIBERDADE OU LIBERDADE VIGIADA

Capa do texto. Fonte: arquivo pessoal.

Considerações Iniciais

Neste texto, não buscarei defender ou mostrar uma imagem de esperança na “liberdade” (que é o que ela proporciona). No meu ponto de vista a liberdade é apenas uma ilusão, e uma meta que nunca será alcançada. Desenvolverei tópicos sobre o aspecto da liberdade na religião, a liberdade na internet, a liberdade na vida e a liberdade de pensamento e expressão.

Liberdade na Religião (Será levada em consideração a vertente Cristã)

“Enfim a liberdade me ouviu/ E abriu aquela caixa onde eu estava/ Tentei voar, mas minhas asas/ Não funcionavam mais/ Eu passei tanto tempo ali/ Tanto tempo que desaprendi/ O que mais amava fazer/ Que era voar com você”

Priscilla Alcantara.

De acordo com a música, a liberdade seria alcançada assim que se encontrasse a figura de Deus e as relações fossem estreitadas. Porém, é necessário refletir sobre as imposições e ideias prontas vendidas pela religião (não pela divindade). Será que diante disso se pode ter liberdade de pensamento e expressão? De qual prisão somos libertados ao adentramos uma religião e para qual liberdade iremos?

Dentro da religião temos diversos dogmas (verdades absolutas e incontestáveis) diante disso, ter uma opinião contrária ou contestar essas ideias seria heresia ou loucura. Sendo assim temos um limite da nossa liberdade de questionar e pensar, mas para continuarmos a análise é necessário saber qual o real significado de liberdade.

“Liberdade significa o direito de agir segundo seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade desde que não prejudique outra pessoa, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Na filosofia é classificada como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia, crítica e espontaneidade.”

Observando o significado vemos que mesmo dentro da religião, já que estamos falando de liberdade poderíamos e deveríamos contestar todos os contextos, todas as práticas e não deveriam haver verdades absolutas, já que tudo estaria suscetível a mudanças, e não deveria ofender ninguém, pois se trata da minha liberdade, que está atrelada ao meu livre arbítrio (conceito defendido pelo cristianismo) mas não é exatamente o que ocorre a intolerância e amedrontamento dos fiéis se faz presente e ajuda a manter o cenário como a igreja espera que esteja.

Através do significado, percebemos que a religião está cheia de fatores limitantes e empecilhos de liberdade. A liberdade da qual se prega é a dos fatores mundanos e práticas condenáveis, para que o encontro anteriormente citado “com Deus”, se faça válido e real. Na perspectiva religiosa a única liberdade possível é essa e acaba servindo de embasamento para diversas outras práticas em sociedade. Por mais que a religião sirva como um fato que colabora com a ética, vida em sociedade e pensamento no outro. A exclusão dos diferentes, dos pecaminosos e dos que não seguem o caminho em busca da liberdade/felicidade ao lado de Deus é grande e forte. O ataque aos diferentes, que deveria ser o acolhimento: Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13,34), acaba se tornando apenas uma frase bonita na religião e na cabeça dos religiosos, enquanto na prática é defasada e esquecida, sendo usada apenas quando se convém.

Aproveitando a ideia de liberdade ao lado de Deus, sendo para essa liberdade necessário a santidade (abstenção da vida proporcionada pelos humanos e prazeres terrenos), juntamente com a participação forte e presente na igreja, cumprindo dízimos e ofertando, a Igreja se torna um campo de poder, influências políticas e enriquecimento dos “espertos” que ali estão, se consolidando de certa forma um poder teocrático, já que muitos seguidores estão no poder político, o que colabora com a perpetuação de preconceitos, demonização de indivíduos e coletivos e formação de grupos que ferem o estado laico e representam de forma polarizada os interesses de uma população tão diversificada e vasta como no Brasil.

Todos os artifícios utilizados pelo cristianismo e pelos seus pregadores e disseminadores, colaboram para que os indivíduos estejam cada vez mais presos a religião e caso questionem ou passem a encontrar falhas na liberdade, estão automaticamente afastados de Deus, se for questionamento de dogmas, no inferno.

Logo, temos uma visão de que a liberdade na religião, além de limitante é programada para que você veja o lado de fora, mas tocá-lo de verdade não. Seriam paredes de vidro, que te permitem vê-la, mas não senti-la. E a partir do momento que você resolve quebrar a parede que te separa dela, você não mais pertence a religião, mas ao mundo, e se estás no mundo, estás longe da liberdade divina. Infelizmente, se você decidir seguir o significado de liberdade e exercê-lo de forma completa, o cristianismo não poderá estar na sua lista, já que não podemos questioná-lo.

Liberdade de Pensamento e Liberdade de Expressão

“Conhece-te a si mesmo”

Socrátes, Maiêutica.

É possível concordamos que desde que não se pratique e não se esteja num contexto religioso e desde que ninguém saiba dos nossos pensamentos por motivos éticos e de convivência, podemos pensar em tudo? Sim. Porém quando pensamos em por em prática devemos considerar a liberdade do outro e saber se estou respeitando-a. E isso também não acontece.

Por mais que tratemos de opiniões diferentes e pontos de vista diversificados devemos estar sempre abertos a autocríticas, conselhos e opiniões (não-ditadoras) que possam desenvolver opiniões diferentes e a capacidade de aprimorar as ideias já formadas. Em um contexto mais amplo quero dizer que, por maior que seja a falta de senso nas palavras que saem da boca de alguns indivíduos devemos dar atenção, tentar entende-los e colaborar de forma educada e positiva para o desenvolvimento intelectual do indivíduo/grupo.

Dentro desse cenário de aprimoramento e construção de ideias e pensamentos, surge Sócrates com a Maiuêutica, que era a forma na qual ele estimulava as pessoas com as quais conversava, a desenvolverem seu próprio senso critico e analisar as situações e problemáticas da vida e do cotidiano.

Atualmente uma das coisas que mais presenciamos é a restrição de liberdade de opinião e expressão. Vivenciamos esse cenário por inúmeras vezes em debates mais formais e também no cotidiano. Não há a ideia de acrescentar ao diálogo “adversário” e sem em derrubá-lo e ataca-lo. Precisamos rever as formas com as quais tentamos convencer alguém a trocar de posicionamento já que a violência nunca é uma solução e apenas segrega relações.

Logo, concluímos que a sua liberdade de opinião é existente desde que não se aproxime de alguma opinião contrária, a partir daí entraríamos em um embate de ideias e não um debate. Até os pensadores do cotidiano, mais liberais e emancipadores acabam caindo/recorrendo a métodos intolerantes de dialogar e cessar a liberdade de opinião e pensamento.

Se alguém não consegue ou é privada de se comunicar, este individuo acaba sendo privado do convívio e do conhecimento de outras realidades e pontos de vista, restando apenas a vivência em uma bolha que o impede do diálogo e do enriquecimento de suas falas, seja na sua mesma vertente ideológica ou na mudança completa do seu modo de analisar o mundo no qual vivemos.

A Liberdade

Nas amizades no amor e na vida

A liberdade seria prioridade

Mas as vezes temos que ficar calados

Por que somos privados pela sociedade

Liberdade… Falsa liberdade

Que impera nas leis tradicionais

Onde a autoridade nos tira duramente

o direito de expressão fundamentais.

Edecio Mergener – Falsa Liberdade, recanto das letras.

Em um mundo utópico imaginemos agora como seria a liberdade e quão felizes seriamos. Viveriamos em uma cena de filme, onde o mocinho sai da casa dos pais, vai viver só e a partir deste simples momento, se torna um ser livre, responsável por tudo e feliz.

A liberdade é apenas uma singela esperança e quando tratamos de esperança tratamos de expectativas e quando falamos de expectativas, falamos de decepções. Tudo começa com o nosso primeiro não, “com dezoito anos farei tudo que quiser”, depois antes mesmo dos dezoitos anos, aos quinze, percebemos que as coisas não funcionam assim, vivemos em uma sociedade que vomita padrões e que por mais que tentemos escapar, vamos ser acertados pelos dejetos. Estes já impregnados em nós, restringem o nosso modo de nos vestirmos, comportamos, de sermos quem somos. Então retomando o significado de liberdade, percebemos que acabamos de romper com o que diz a espontaneidade.

Após adquirirmos a nossa “capacidade de crítica e de manifestação”, percebemos que a nossa cultura de ficar calados e não criticarmos, nos poda outra característica da liberdade. Já que antes erámos submissos aos nossos pais, agora submissos ao governo e futuramente aos patrões, entregamos de bandeja mais uma fatia da nossa liberdade. Claramente queremos continuar fazendo parte de um grupo familiar, não queremos ser expulsos da escola, muito menos perdermos o emprego. Porém com o passar o tempo nós abrimos mão da capacidade de crítica a favor de outros interesses muito menos importantes. Nada não devia nos impedir de criticar o

modo que a sua família trata a empregada, ou a falsidade com os outros familiares. Nada não devia impedir que criticássemos a forma que a escola (tradicional) despeja regras e algumas formas de comportamento que não acrescentam a nada, apenas restringe o aluno e a sua espontaneidade. Nada devia impedir que o trabalhador criticasse o seu patrão por colocar seus empregados para trabalharem nos sábados e domingos. Aqui, perdemos mais uma parte da liberdade.

Por último, autonomia, a mais simples de todas. Diante de tudo que já cedemos até agora, estamos em um cenário que sempre estaremos submetidos a alguém, seja esse alguém que teoricamente está lá para cuidar de você, mas na realidade não sabe te libertar para o mundo e para tomar suas próprias decisões e escolhas. Podemos também estar submetidos a um empregador, que diante da ameaça de demissão, te convencerá a trabalhar de forma continua e exploradora e sem reclamar, mas ganhando um pouquinho mais (vivendo menos, claramente). Também é possível que você se prenda a vida inteira em uma realidade que não te pertence, pelo fato de não ser aceito pela sociedade e por não poder ser como você é, devido aos padrões que nos mesmos criamos e ditamos como regra.

Conclusão

Freedom! Freedom! I can’t move

Freedom, cut me loose, yeah

Freedom! Freedom! Where are you?

‘Cause I need freedom too!

I break chains all by myself

Won’t let my freedom rot in hell

Hey, I’mma keep running

‘Cause a winner don’t quit on themselves!

Beyoncé – Freedom, letra.

Como dito antes, a liberdade é apenas uma esperança de que um dia você será totalmente livre, liberto e autônomo. E a cada vez que chegamos aonde acreditávamos que ela estaria, ela se muda para uma nova meta, um novo objetivo, uma nova esperança e uma nova decepção. É lúdico, motivante e utópico acreditarmos que iremos alcançá-la, mas no nosso interior sabemos que não é assim.

Talvez tenhamos que recuperá-la aos poucos, da mesma forma que a entregamos, mas duvido que conseguiremos, pois sempre que vencermos uma etapa teremos ou terão criado uma nova, pois os que definem o limite da nossa liberdade não querem que saímos das suas rédeas. Enquanto isso seguiremos fazendo as nossas “escolhas de liberdade” ou a escolha dos resultados menos piores, pois sempre teremos caminhos pré-estabelecidos a nossa disposição. Mas sabemos que ou não temos liberdade, ou temos liberdade, porém vigiada.

Ouça Liberdade – Priscilla Alcantara

Ouça Freedom – Beyoncé